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Ciguatera : Como as mudanças climáticas envenenam a nossa comida ?

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Aquecimento global, mudanças climáticas e suas consequências estão sempre em pauta nas conferências ambientais no mundo todo. Mas no dia a dia, muitas vezes, não percebemos como isso pode nos afetar diretamente.

Além do aumento da temperatura no verão e a ocorrência de invernos cada vez mais rigorosos, compreender que o efeito do aquecimento global pode atingir a nossa saúde ou diretamente a nossa alimentação, ainda pode ser difícil para muitas pessoas.

Mas como essas alterações ambientais podem impactar a nossa saúde e alimentação?

Além do efeito negativo na produção de alimentos (decorrentes de secas extremas, enchentes e geadas intensas), à medida que nosso planeta esquenta, também aquece nossos oceanos, o que pode desencadear na morte de corais.

De acordo com a Dra. Mindy Richlen, especialista em Ciguatera na Woods Hole Oceanographic Institution, nos Estados Unidos, a morte de recifes pode contribuir para o aumento do desenvolvimento de organismos, como dinoflagelados (minúsculo organismo unicelular), que podem disseminar ciguatoxinas aos peixes, contaminando-os e causando ciguatera em humanos.

Embora a Ciguatera se apresente, inicialmente, como uma intoxicação alimentar padrão, eventualmente, transforma-se numa dormência nos dedos das mãos e pés, que se repete por meses ou até anos, podendo causar também troca de sensações de calor e frio (efeito colateral que leva as pessoas a pensarem que seu refrigerante está queimando ou que bebam café muito quente).

Com  o aumento na exportação de peixes no mundo todo, ciguatera pode se tornar um risco generalizado.

Ciguatera

Embora o aumento da temperatura dos oceanos e fenômenos climáticos tragam ciguatera às manchetes, a toxina é muito comum e existe há muito mais tempo.

Vários personagens da história já se depararam com a ciguatera, como Alexandre (o Grande), no século IV a.C., supostamente proibiu seus soldados de comer peixe devido uma doença considerada ciguatera. E o colega de tripulação do capitão James Cook (primeiro navegador a mapear a linha costeira da Antártica), que descreveu provável envenenamento por ciguatera, enquanto exploravam o Pacífico Sul.

Ciguatera já foi responsabilizada por um pequeno número de mortes ao longo dos anos, principalmente devido a complicações decorrentes dos efeitos da toxina no sistema neurológico e digestivo, mas raramente é fatal.

Entretanto, estes registros podem ser subestimados, uma vez que é realmente difícil identificar quem está contaminado. Além disso, os peixes com ciguatoxina não são diferentes, não existe uma maneira viável de testá-los, apenas em laboratório. E o fato de congelar ou cozinhar o peixe não impede da toxina agir quando consumido por humanos.

A maioria dos diagnósticos de ciguatera é baseada na espécie de peixe consumida e na região onde foi capturado.

É comum que os casos ocorram particularmente nos oceanos tropicais do Caribe, da Índia e do Pacífico, pois ciguatera é predominante em climas tropicais, onde recifes de corais são abundantes. Contudo, as áreas de pessoas afetadas estão mudando, devido às alterações climáticas, pois o dinoflagelado tóxico pode agora crescer em lugares onde antes não poderia.

Em lugares como o Golfo do México, o dinoflagelado costumava regredir no inverno. Mas agora, com o oceano cada vez mais quente, cresce e permanece o ano todo.

Os centros de controle e prevenção de doenças, afirmam que até 50.000 casos de envenenamento por ciguatera são relatados anualmente em todo o mundo, mas poucas pessoas percebem como isso é comum. Especialistas indicam que, sobretudo em áreas endêmicas, é interessante evitar consumir peixes de recife, como pargo e garoupa. E ainda, peixes como a barracuda, que come peixes menores e que poderão estar contaminados, pois peixes maiores são mais propensos a acumular as toxinas que causam a doença.

Ainda não há cura para esta misteriosa intoxicação alimentar. E à medida que o aquecimento global intensifica, é provável que a ciguatera se torne cada vez mais comum.

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