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Um vazio que preenche

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Semana passada perdi um familiar. Recebi a notícia num final de tarde chuvoso, aliás, cenário compatível com o ocorrido. Porque quando alguém morre e chove, dá a impressão de que é a maneira mais sutil que a vida, ou a morte, encontrou para se redimir dos que ficaram, é a maneira mais sincera com que a Natureza dá seus pêsames. Chover em dia de morte é a amostra mais engenhosa de que os sentimentos de Deus estão em sintonia com os nossos.

De qualquer maneira, receber uma notícia dessas é desconfortável. A gente só pensa em escorregar pela parede de onde estiver, cair num canto e chorar. Ou ir para a cozinha, pegar uma garrafa de vinho e tomar até desacordar, até o tempo tirar da gente qualquer vestígio de tristeza e saudade. Em alguns casos, até de inconformidade. A gente fica meio aéreo, meio insosso, afinal, ninguém nos ensina a lidar com a morte; talvez porque ninguém saiba.

Lidar com a morte de alguém querido é lidar com a nossa vida mais vazia. A família fica menor, a casa fica maior. No carro sobra espaço. Na mesa do jantar falta um prato. No guarda-roupa sobram cabides; no espelho falta uma imagem. O álbum de fotos fica preto e branco, e o que já era preto e branco parece amarelar quando encontra o nosso olhar. A gente sente falta do óculos em cima da mesa, da blusa pendurada na cadeira, do rádio ligado sempre na mesma estação. O quadro, na parede, não faz mais sentido estar ali, assim como não faz mais sentido almoçar ao meio dia, jantar às seis da tarde, dormir às nove da noite. Etiquetas que a gente segue para agradar ao outro, ou até mesmo pela necessidade do outro, deixam de ser um preenchimento das horas e se transformam numa incoerência incomoda, inoportuna.

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Esvaecem algumas alegrias que, normalmente, passam despercebidas. Quando o telefone toca há a certeza de que não é a pessoa te ligando. Quando a carta chega, há a certeza de que não é ela te escrevendo. Quando a campainha chama, há a certeza de que não é ela te fazendo uma visita com saudade dos velhos tempos. A saudade, agora, é um monólogo dentro de si próprio.

Perder alguém querido não é a melhor maneira de se aprender sobre a vida, mas diria que pode ser a mais eficaz. Fixam-se aquelas frases que sempre ouvimos dos outros, porém que nunca excedeu nosso conhecimento teórico: que “a vida passa”, que “o amanhã pode ser tarde demais” e “quando o futuro vira passado, é fácil ver o que tinha que ser feito”. Pois é, e então a gente vê, até com certa clarividência, o que poderíamos ter feito e não fizemos, o que poderíamos ter dito e não dissemos, o que poderíamos ter compartilhado e não compartilhamos. O que sempre encaramos com tanta dificuldade, como barreiras indestrutíveis, em questões de segundos vira a coisa mais fácil do mundo de se lidar, se a pessoa estivesse ali.

Enquanto me despedia dele, naquela manhã fria e chuvosa, cheguei a seguinte conclusão: que o que mais tememos da morte é justamente a vida: a vida que continua do lado de cá, e a que se inicia do lado de lá. Porque entre as duas se estabelece uma barreira, a única verdadeiramente impossível de quebrar.

 

Written by Camila.alves

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